fev
14
Profissional Maior que a profissão

De tempos em tempos surgem profissionais que são maiores que suas respectivas profissões. Eu pessoalmente posso listar alguns, acredito que você que lê essas linhas também. E o que faz um profissional ser considerado “maior que sua profissão”? Eu não sei exatamente como definir isso, mas posso tentar rapidamente arriscar que talvez seja a falta que esse profissional causa com sua saída do mercado, o buraco que essa ausência causa e aquela sensação de “insubstituibilidade”. Essa sensação é bem familiar se tomarmos alguns exemplos, por exemplo: Quem subsituiu Ayrton Senna? Acho que as corridas perderam muita da sua graça com a morte do campeão, você também não acha? Aquela sensação de que o próprio esporte ficou mais pobre. Eu tenho uma dúzia de exemplo assim e com certeza você tem outra dúzia pra contar, mas ontem me recordei de “um” exemplo em particular que chegou a me emocionar.
Pouca gente sabe, mas sou um apaixonado pela dublagem brasileira. Sim, isso mesmo, “dublagem”. Pra quem não sabe a dublagem brasileira é considerada uma das melhores do mundo. Já tive a honra de inclusive conversar com alguns dubladores veteranos que marcaram minha vida, como por exemplo o genial José Santacruz (dublador do chef Gusteau em Ratattouille, dentre muitos outros), Silvio Navas (espíritos do mal, transformem essa forma decadente em Mun-haaaaa) e Miriam Fischer (não é a mamãe, não é a mamãe), para citar alguns.
Ontem a noite estava em casa com minha mulher na sala, conversando e assistindo TV para aproveitar um pouco dos raros segundos de descanso que as crianças nos dão. Foi quando encontramos o filme “Duro de Matar 4″, com Bruce Willis. Foi a primeira vez que vi um filme de Bruce Willis com outra voz que não a do Newton da Matta. O genial e indescritível Newton da Matta foi o dublador oficial de todos os filmes com Bruce Willis desde os anos 80. No Brazil, é só você ver a imagem do Bruce Willis na TV e automaticamente você lembra da voz do Newton da Matta. É incrível como a voz dele encaixava perfeitamente com o ator em todos os aspectos possíveis, seja tom de voz, sarcasmo, ironia, tudo.
Infelizmente Newton da Matta nos deixou em 2006. Desde que eu soube disso na época, com muita tristeza, imaginei como seria ouvir as dublagens de Bruce Willis na voz de outro ator. Quem seria o substituto? Como seria? Ontem pela primeira vez e de surpresa tive a resposta. Ao contrário do que aconteceu com a dublagem de Silvester Stallone após a morte do dublador André Filho, não buscaram uma voz parecida com a anterior. O novo dublador (não consegui reconhecer quem seria) tem a voz completamente diferente da voz do Newton da Matta, mas foi aí que percebi um fenômeno que não acontecia apenas comigo. Apesar de ouvir a dublagem na voz do outro ator, a cada nova frase dita por Bruce Willis e dublada, em minha mente eu repetia a frase do outro dublador com a voz do Newton da Matta. Por mais que eu me esforçasse, em cada nova frase eu insistia em repetir mentalmente como seria a mesma frase dita por Newton da Matta. Em certo momento pro meu espanto cheguei a ter a impressão de ter realmente ouvido a voz dele. O incrível é que não era algo apenas comigo, já que minha mulher comentou expontaneamente que estava tendo essa sensação, e olha que ela não é fã de dublagem como eu.
Esse fato me fez refletir sobre isso, sobre um profissional ser maior que sua profissão, ser absolutamente insubstituível ao ponto de recriarmos a presença dele mentalmente. Newton da Matta, amigo meu e de toda uma geração que cresceu ouvindo sua voz em personagens de desenhos (The Flash, Thundercats) e filmes (Bruce Willis, Dustin Hoffman, Mickey Rourke, etc). Descanse em paz. Você por aqui jamais vai ser esquecido.