fev
14
Dublagens inesquecíveis
Inspirado sobre meu último post sobre Newton da Matta, resolvi usar esse espaço para revelar algo que nunca contei a ninguém. Dois momentos da dublagem brasileira que me marcaram profundamente envolvendo três dos maiores dubladores brasileiros em dois momentos distintos. Vamos a eles:
1.ROCKY, A LOCUÇÃO
Em 1984 a Rede Globo exibiu “Rocky, Um Lutador” e uma semana depois “Rocky II, A Revanche”. Na época eu não possuia videocassete em casa, mas meu pai trabalhava com equipamentos de som e isso me fez ter a idéia de gravar “o áudio” dos filmes. Afinal, equipamento e fitas cassetes davam em árvores na minha casa. Pode parecer muito bizarro hoje em dia, mas era um pouquinho menos naqueles primeiros anos dos anos 80 e sendo eu uma criança de 6 anos de idade. Eu vibrei com as cenas de luta de Rocky I e II e ouvi as fitas dos filmes dezenas de vezes. Mentalmente eu recriava cada cena baseado no que ouvia e assim deixava a imaginação solta durante as cenas finais de luta. Várias vezes eu lutei contra um Apollo Creed imaginário na minha frente enquanto o aparelho de som tocava o áudio daquelas lutas empolgantes, e era exatamente a locução daqueles combates o que me parecia mais excitante. A forma como o locutor descrevia a batalha entre Rocky Balboa e Apollo Creed tornava a luta algo épico, e eu ali apenas “ouvindo” como quem ouve pelo radinho de pilha o jogo de uma final de copa do mundo, me sentia eufórico mesmo após ter ouvido dez, vinte vezes cada luta.
Obviamente, após tanto ouvir, decorei palavra por palavra daquela locução sensacional. Alguns anos depois – que até podem ter sido meses, uma vez que para um garoto de seis anos meses são quase que uma vida – em uma sessão de filmes na casa de um amigo pude assistir pela primeira vez ao filme com som original, em inglês. Então tive um susto! Onde estava a locução? O áudio original não trazia locução! Como? Me sentia perdido com isso! Derrepente o luta perdeu metade da graça! Pra piorar certo tempo depois o filme foi redublado e também na redublagem nem sinal do locutor da luta. Você talvez não entenda, mas o filme realmente não possuía aquela locução. Por algum motivo a dublagem brasileira inseriu por conta própria uma locução para a luta que ficou absolutamente sensacional. Eu tenho essa locução na minha memória apenas. As fitas cassetes não existem mais. As versões exibidas na TV ou disponíveis em locadoras não as trazem mais. Mas eu nunca esqueci, pois por muito tempo o áudio era a única coisa que eu tinha desses filmes (Rocky I e II) e eu o ouvia frequentemente.
A dublagem brasileira desta vez não foi apenas impecável no seu trabalho em si, mas chegou até mesmo a criar uma nova visão sobre o filme que foi muito melhor do que o próprio filme orginal. Ainda tento encontrar aquela versão em algum lugar e espero que um dia a Internet me permita conseguir. A voz da locução eu viria a descobrir depois é do ator e dublador José Santanna.
2. ROCKY, A DISCUSSÃO
Muitos anos se passaram após isso… bom… na verdade foram três anos, mas para um garoto de nove anos, três anos são um terço da sua vida, portanto muito tempo. No início de 1986 eu vi ainda na Globo o filme “Rocky III”. Nessa época já havia um videocassete em casa, e como era de costume em quase todas as casas, nós gravávamos quase todos os filmes legais que passavam na TV para assistirmos depois. Eu tinha dezenas de fitas gravadas em modo lento, que permitia uma média de três filmes por fita. Em uma delas eu guardava – e revia sempre – “Rocky III”.
André Filho era o dublador brasileiro encarregado de emprestar a voz para Sylvester Stallone em todos os seus filmes. André, já falecido em 1997, era muito talentoso e conseguia dar uma personalidade diferente para Stallone em cada um de seus filmes, melhor até que o próprio ator. Rocky era uma personalidade quase matuta, ignorante, que falava pra dentro, e assim André Filho o fazia. Quem não curte dublagem nem se dá conta que a mesma voz acanhada e enrustida de Rocky Balboa era feita pelo mesmo cara que fazia aquela voz imponente do Superman e também a voz avacalhada do Capitão Guapo no desenho Corrida Maluca.
Na série Rocky a voz de Adrian Balboa era dublada pela competente Carmem Sheila, outra veterana dubladora brasileira. Era uma personagem tímida, meiga e insegura. Carmem conseguia passar essa personalidade na voz dublada como ninguém. Assim eram Rocky e Adrian, dois personagens inseguros que pareciam querer pedir socorro um para o outro, um caos completo.
E é aí que vem a grande transformação. Em Rocky III, em certo momento durante o treinamento de Rocky para a luta de revanche contra Cluber Lang, Adrian resolve cobrar de Rocky mais empenho e determinação. Os dois personagens derrepente se transformam e discutem visceralmente. Derrepente um Rocky matuto parece querer assumir sua posição de “Homem” e a fraca Adrian cresce e se mostra como a grande mulher que serve de apoio para aquele lutador. A dublagem nessa cena entre André Filho e Carmem Sheila é, na minha opinião, o mais marcante e lindo momento da dublagem brasileira. A transformação nas vozes desses atores naquele momento deu uma dinâmica àquela cena maior do que mesmo a cena com seu áudio original.
Pra mim, a maior dublagem brasileira na história.